quarta-feira, 12 de maio de 2021

terça-feira, 11 de maio de 2021


 Uma leitura de Amadeu Baptista

Estrada de Cinza’ é o novo livro de António Ferra, com a chancela das Edições Eufeme. Acaba de sair. O livro constitui-se por seis painéis poéticos, a que nem sequer falta o regular envio para a poesia medieva portuguesa (capítulos 2 e 3) (como que a lembrar-nos de onde vimos e que repositório de materiais temos armazenados), chamada à puridade para retratar e interpretar as anacronias do dizer contemporâneo, que Ferra mobiliza (por ofício) para fixar (e detalhar) as assincronias sistemáticas do nosso tempo, o seu absurdo, a sua contraproducente fiabilidade. Esta escrita revela que tudo está em jogo na arte dos versos, porque essa mesma arte se sustenta do que, inexoravelmente, nos sitia, não só enquanto passivos criadores do nosso tempo, mas também como activos personagens da nossa história, do nosso desempenho perante ela e, sobretudo, perante a nossa vida e a fracção paradoxal que lhe é inerente: que, amiúde, a dá como sem sentido na ampla geografia das nossas ânsias. É esta uma poesia sem subterfúgios, com a coerência de quem nada tem a perder e que aposta forte num Expressionismo dedutivo (cabe ao leitor exercer esse exercício, o autor insta a que assim seja), que amplia as formulações detectadas num dos seus livros anteriores, ‘Clara em Castelo’, de 2020 (Douda Correria) – e por isso mesmo se assume como testemunho da deformação com que o real nos define e circunscreve. O que nos versos deste livro se lê articula-se e situa-se muito para além do pendor satírico a que Ferra nos habituou, são versos de activa e prolífica derisão que tudo interpretam e interpenetram, desde as mais singulares e longínquas experiências que o poeta viveu até ao jogo erótico com que se confrontou, passando, obviamente, pelo fluir ronceiro do quotidiano a que nem sempre sabemos o que opor, tornando-nos seus alheados cúmplices, mas a que o poeta contrapõe a sua poética, a sua releitura atenta e produtiva, a sua eficácia criativa. Uma construção que, verso a verso, e poema a poema, depura a ‘realidade’ vigente, sopesando-a e propondo a actualização (modificando-a, portanto) de uma idiossincrasia que, refém da alienação, reclama que o poeta lhe desmonte os absurdos, atribuindo-lhe uma outra ordem de análise e reflexão. Confiamos no que nos é proposto nesta verificação da ilógica sucessão dos dias, nesta ‘estrada de cinza’ que temos que palmilhar com todos os sentidos despertos, sob pena de, se não o fizermos, ser ainda maior e mais devastadora a desolação e mais terrível o poder de todas e de cada uma das nossas angústias. ‘Estrada de Cinza’, de António Ferra: um livro a ler e a manter por perto, enquanto nos pudermos reconhecer uns aos outros, bem como à poesia que nestas páginas tão magnificamente nos nomeia.
Amadeu Baptista, Maria Cabral e 14 outras pessoas
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segunda-feira, 22 de março de 2021

ASAS de PAPEL - mensagem do José Barata, velho amigo

 

20 de março às 16:08

 

 · 


Cajadães. Na caixa do correio uma carta. Uma quase já esquecida forma de dizer que se existe. Carta do António Ferra. Lá dentro um livrinho. Terno recado de papel. Poemas. Criações que expressam mais do que simples entretem; uma grande seriedade dentro da auto-paródia. O António 'caracterizou-me' no TEUC; acompanhava um grande amigo com quem estudava a 'detestável' Fonética do Drº Lacerda, ignorantes que éramos da importância do que aquele homem sabia. Era o José Manuel Mota, homem inteligente, culto, "escravo cardíaco" de um coração sempre pronto a parar. O José Manuel foi universitário sem nunca o ser. E desapareceu sem dizer quando. O António saiu de Coimbra. Nunca mais o vi. Graças a esta 'coisa' reencontramo-nos. Rio-me com os 'videozinhos' que faz. Chamei a um deles 'bazuca poética'. Agora chega-me numas 'asas de papel', como o avião feito em folha dobrada que a gente sopra no bico, talvez e apenas para lhe transmitir um pouco de nós. António, isto é um abraço. Não retribuirei com um livro. Muito menos com o que estou a acabar e que ninguém publicará... Não rende; pouco interessa o resultado de investigações... Eu e a Manuela agradecemos. Mas, mais do que isso, eu recordo na pequenez física do livro, a caixa de afectos nunca perdidos e que agora se reencontraram ao fim de tantos anos de voo...


quarta-feira, 17 de março de 2021

Outra leitura de Liberto Cruz

Considerando que "às vezes  as palavras nos dividem" António Ferra continua a surpreender-nos agradavelmente  com imagens oriundas de um mundo recôndito e onírico.
Não dizendo quase nada ,recolhe e concebe desenhos em que a palavra oculta vigora e se insurge em asas de papel cujo epílogo se pressente inevitável  ser a rugosidade da pedra. Aparentemente parca e efémera a mensagem toma corpo porque não amadurece fora de época. Persiste e recorda. Actua e convence.

domingo, 28 de junho de 2020

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

a poesia é caríssima

A poesia é caríssima, custa muito dinheiro aos pedintes,
ali a mendigar junto ao semáforo, traje a rigor,
por dez livros de versos pagam vintes:

« - Ainda ontem tomei um copo de leite
e uma bola de Berlim, qual Belarmino na ressaca,
e não soquei ninguém neste boxe da palavra,
nesta queda no tapete a preto e branco»

Tanto verso, às vezes curto, a euro e meio,
tanta sílaba dividida pelos cêntimos!
Vendem os poetas versos livres
ou as métricas saídas do paleio
onde se finge a dor que não se sente,
se fere a angústia e fecha o cerco ao sentimento
de Pessoas ao dispor de toda a gente

(e digo isto porque tenho lido coisas!...
ai, meu Deus, que parecem ser mesmo verdade,
se calhar um poeta nunca mente.)

E a cruz arrastada do leitor que penetra na leitura
interrompendo a noite, ouvindo Debussy
decifrando versos durante as horas lisas,
folheando rimas, a surpresa dos conceitos,
sem saber que aquelas letras feitas de água
dão muita despesa, uma grande trabalheira,
e muito estudo, enquanto a noite dura?

Tantos anos de palavras e de jogos,
tantas luzes sentadas na cadeira, na ferrugem das manhãs,
no comércio do mote que os guia!

E se a sátira se estende na lombada do livro curto,
ou da antologia volumosa, (oh, senhores, de meia vida?!)
juntai metáforas, lede Camões que é bom e é barato,
ride-vos d’ O’Neill que não perdoa à graça, sofre a sorrir.

Mas, por quem sois, se arrumais carros nas pracetas,
não compreis versalhada ao desbarato, é tempo de ir
comprar poemas avulso para os bolsos.
No entanto comprai poucos,
podeis crer que as letras não são tretas
andamos todos é a ler-nos uns aos outros.

série poesia satírica, incluído em Livro de Reclamações

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

literatura para crianças

dois olhos de vidro


O Francisco gostava muito que a tia Rosa lhe contasse histórias de quando ela era menina. Como a da boneca chamada Mimi.

Era uma boneca de louça, daquelas que se podiam partir. Não era como as de agora, de plástico ou de borracha. Tinha um vestido cor-de-rosa, com florinhas azuis e folhos brancos na gola e na bainha. Quando estava sentada, ficava de braços abertos, de polegares espetados, a olhar para longe com uns olhos azuis brilhantes, debaixo de pestanas muito grandes e direitas.
Que lindos olhos ela tinha!

A tia Rosa era, então, uma menina de dez anos, que gostava de compreender as coisas mais simples que encontrava – o ruído das cigarras no Verão, os carreiros de formigas, o brilho dos pirilampos à noite.

Um dia, encantada com os olhos da Mimi, quis ver como eles eram feitos. Acabou por tirá-los para fora. Eram dois olhos azuis de vidro ligados entre si por um arame muito fino.
Estragar a boneca foi fácil, compô-la é que era mais difícil. E lá ficou a boneca à espera que alguém a levasse ao hospital.

Já sem aqueles olhos que lhe davam o encanto, foi sendo esquecida.
A Rosa só deu verdadeiramente pela falta da boneca, quando a família se mudou para um andar, nuns prédios novos, no coração da cidade, deixando para trás o quintal grande onde os pássaros lhe faziam companhia.

Acabou por perder a Mimi. Ficou muito triste, porque mesmo que arranjasse outra, nunca seria como a sua Mimi com aqueles olhos lindos.
Mas conservou sempre consigo aquele par de olhos azuis unidos por um araminho de dois centímetros.
A tia Rosa, que hoje também já é mãe de filhos crescidos – diz o Francisco - ainda agora os guarda dentro de uma caixa de cartão. De vez em quando, destapa a caixa e fica a olhá-los, sonhando com aqueles passeios que dava com ela ao colo, pelo quintal fora, observando carreiros de formigas e ouvindo um melro que as visitava.
Ainda hoje aqueles olhos de vidro lhe fazem companhia e ela continua a guardá-los, porque acha que um dia a boneca pode aparecer.
inédito

domingo, 30 de dezembro de 2007

aquáticos





























Três linhas

1.
Numa repartição pública roubaram-lhe três linhas à escrita corrida onde se incluíam uma metáfora e outras três linhas ocultas

as pedras ficaram menos lisas neste meu quase último passeio. Poliam-me o olhar, as pedras, enquanto eu segurava o rosto, naquele equilíbrio entre o horizonte de lama e o recorte das casas numa colina de sal

A organização social da humanidade concentrada nos centros urbanos encontra-se reflectida nos mais pequenos sinais. Na verdade, nunca uma árvore pode ser derrubada, quando a música da manhã envolve o tronco, a copa, as folhas dispersas pelo céu, recortando fantasias, e um rasto de luz fica preso à sombra projectada no solo, pouco antes de o sol desaparecer completamente. As cidades estão poluídas de papéis sem cor, uns papelinhos aparentemente neutros que caem sobre as máquinas de fazer gelo situadas no exterior das estações e serviço que vendem gasóleo, mas também leite e pão, e gasolina e frescos muffins. Só quem não conhece a parte mais funda do poço dos desejos é capaz de trocar o néon pelo sol. Ainda assim, as manhãs vêm estimular o pensamento racional que amansa as dúvidas do corpo livre, corpo simultaneamente desejoso e apreensivo de confrontar-se com a regularização dos medos. Isso acontece frequentemente nas paredes mágicas que contornam os sentimentos mais comuns, tais como os estados de alma com uma ténue serenidade exposta às intempéries ou aos rostos amansados pela claridade.

2.
Numa repartição pública as moscas deixaram de perturbar o silêncio. Proibiram-lhes o vôo em zig-zag, bem diferente do vôo das aves de rapina, que é feito da seguinte maneira: a ave, lá de cima, faz desenhos circulares, enquanto vai filtrando a presa com o olhar. Depois aponta a um alvo e desce vertiginosamente até mergulhar sobre um pobre rato que pode mesmo situar-se entre os arquivos de cartórios notariais.
Havia um homem que tocava os tornozelos com os lábios e depois dizia que era de sabor amargo o rio de saliva que lhe escorria pelo peito. Isto tornou-se uma necessidade permanente, ao fim de alguns dias. Até que pensou mesmo que poderia morrer durante um destes exercícios. Quem pensa que está diminuído na sua saúde, na saúde das mãos que já não se mexem da mesma maneira, pode estar enganado. A organização social das cidades, deixou de ser uma panacéia. A questão é esta: de um campo interior as folhas voláteis dirigiram-se para o mar, mas para isso tiveram de atravessar um aglomerado de gente e de prédios onde o lixo se acumulava, indiferente às necessidades de respirar. A coca-cola já não tem qualquer responsabilidade sobre a proporção que as coisas tomaram, não há bodes expiatórios para as passagens subterrâneas. A destreza dos condutores produz efeitos rápidos porque as estradas se colam aos carros deslizantes, prateados na pista de mármore. Por vezes, algumas poças de água fazem travar o impulso automóvel, derrapagem breve por todos os trilhos.
Lá em baixo o lago, o Largo sem r, o pente sem dentes, a indecisão do cinéfilo perante a crítica ao filme. A praia estava iluminada pela luz artificial. Era uma luz crua, de um cinzento ácido, que tornava o areal mais limpo. Foi esta a imagem que Sobrevivente trouxe para casa.
Lá fora havia uma estrada com prédios do lado de lá. No primeiro plano as árvores estavam quase despidas, neste inverno onde ele procurava as palavras exactas para colocar no papel, a quatro. O computador ficou parado, apenas com o ruído continuo ao rá lanti. Agora, já se sente a falta do papel-papel

talvez os barcos de recreio tenham saído nas tardes de sexta-feira, quando existem expectativas para o fim de semana. Perdi-me a olhar aquela faixa de musgo que abrigava pássaros tardios, répteis da noite

3.
Três linhas, e era como se a terra ficasse húmida, em vez daquela terra parda e seca, antes da humidade de Novembro. O Sobrevivente cortara radicalmente com o campo, com o Verão silenciado, e ficou com as estrelas da noite que a cidade esconde. Que confusão esta, nem sequer a verdade num objecto tão simples como cinzeiro de prata sem história! Colam-se na parede as imagens esquecidas, já nem vale a pena medir o declive do terreno. Foi tudo um mal-entendido. Talvez alguém se vá embora de vez, conduzindo um Chevrolet de 1940, ou qualquer outro carro de carroceria a brilhar, cheia de cromados deslumbrantes, como num anúncio onde uma mulher exibe um sorriso de nácar.
De tanto esperar, tirando a senha, ficando com ela entre o indicador e o polegar, quando ia falar com alguém, ao Sobrevivente metia-lhe impressão não ter uma senha numerada das filas de espera na farmácia, nos notários, nas finanças, nos serviços de gás, de água, de telefone, enfim, uma segurança que se podia chamar social. Ele, o Sobrevivente, sentia entre as mãos a oportunidade a fugir-lhe. “Ah, queria falar, pago para isso, quanto é?”.

4.
Apercebo-me mais do sol, sinto-o com uma intensidade que não conhecia. É uma surpresa, apesar de saber que tem um prazo de validade impresso a letras quase ilegíveis, mal se vêem.

Três linhas, mais letra menos letra, trinta e duas palavras escritas na subversão da noite. Apenas essas, de relance, automáticas, pequeníssimo espaço onde Sobrevivente se mantinha vivo, ele, um homem perseguido que se queria refugiar nas montanhas vivas, qual guerrilheiro das palavras. E viver do que a natureza lhe dava, como já antes acontecera, durante cerca de quatro meses, num país de sonho tropical onde a falta de chuva o levara ao desespero durante algum tempo, embora soubesse que a respectiva época haveria de realizar-se, ainda que tardiamente. Até que uma noite, quase madrugada, ela desatou a cair como Deus a dava, com o peso daquelas mangueiradas naturais a entranharem-se na terra, a escorrerem de um poilão contente, a regarem à bruta a bananeira plantada em frente da sua casa. Saiu porta fora e ali ficou a deixar que a água lhe atravessasse os ossos e lhe lavasse a alma de tanto esperar, de tanto desejar.
O desejo é um estado que inquieta e nos faz suspensos de qualquer coisa que há-de vir do céu, que é para onde olhamos quando queremos saber “para quê isto?”. Sabemos, então, que seremos dissolvidos na lama de arrasto, nas pedras, nas raízes das árvores que seguram a montanha onde os guerrilheiros lutam por uma libertação final e absoluta.

5.
Até na cela colectiva Sobrevivente conseguia escrever as três linhas necessárias para sustento diário. Não mais do que três linhas. Os outros dois companheiros de cela gritavam de inveja sem saber que a tinham. Queriam era desgovernar-lhe a mão ligada a uma esferográfica lenta. O maior, o dono da cela, tinha olhos redondos de peixe, cara redonda também, corpanzil para cem quilos, tatuagem no braço esquerdo: um cobra de língua bífida, a rastejar. O mais novo era magro demais, com olhar de gato agressivo, saltitante até às grades. Cortava as palavras de Sobrevivente, censurava-as com a respiração, com os olhos, com os gestos, nas voltas inquietantes na cama do beliche. Sobrevivente achava bem, mas sabia que a sua luta era infindável. Que mesmo quase sem privacidade podia inventar as três linhas diárias num curto espaço de tempo. Isto era assim devido à privacidade quase. Dos outros dois nada se sabe, mas de Sobrevivente sabe-se que foi detido, uma tarde, numa repartição pública cujo serviço mais especificado não será aqui referido, por uma questão de privacidade. Sobrevivente exaltara-se, de facto, quando se sentiu esquecido e abandonado, e feriu com o olhar a funcionária, porque os olhares podem ser tão violentos como as palavras e os gestos. Por isso foi preso e condenado. Acabou por perder amigos e família, dinheiro e prestígio social, apenas porque não distinguiu a funcionária etérea da mulher-quimera que o torturara durante dois anos e meio, quando chegava a ficar esticado numa corda da marquise à espera de ser confundido com roupa a secar, só para não ser notado, sobretudo por essa mulher que amava. Mas ela não o amava, apenas se servia da sua frágil genitalidade, do seu aspecto escravatário que lhe dava mesa e tratamento de roupas em trocas de cama lavada.

6.
Depois de fazer os tais desacatos na repartição pública (alguns insinuam tratar-se de uma repartição de finanças, já que as situações tributárias sempre se associaram à culpa) foi levado pela polícia. In loco. A funcionária que o iria atender era uma mulher magra, com cerca de quarenta anos, cabelo louro altamente artificial, lábios roxos e vestido negro, como se fosse para uma discoteca ou para um “party pris” e não para atender homens e mulheres que faziam bicha contida, em purra, aqui e ali.
Ao começo da noite Sobrevivente procurava as palavras que lhe começavam a escassear à medida que o seu pensamento se esvaziava, devido, em parte, à falta de uso adequado. Porque eram sempre as mesmas palavras copiadas ao longo dos anos, num caderno de cópia mental, marginalizado. Mais do que uma vez lhe faltaram as palavras e ia morrendo de solidão. Só não morreu, porque vislumbrou através das grades a copa de um plátano com algumas folhas amareladas, folhas de Outono num resto de sol da tarde. Esta sua não-morte deveu-se ainda às três linhas que conseguia escrever, pois assim recuperou uma certa individualidade. Sobrevivente escrevia as coisas que precisava de fazer para sobreviver, sempre no gume da navalha. Tanto podia escrever sobre as folhas de plátano, como podia escrever sobre o medo de morrer de medo, ou sobre as surtidas nocturnas que desejava fazer através de um amontoado de palavras, embora soubesse que isso não passava de um sucedâneo. Desesperadamente, então, acumulava imagens na cabeça só para entreter, género assalto a repartição pública para registo de dados, falsificação de senhas de espera, é de cétara. E dava-se a estes luxos de liberdade mental nos intervalos em que o gordo e o magro lhe davam certo descanso à fantasia, em vez de massacrá-lo com os cigarros, o negócio dos mais estranhos objectos, tipo canetas bic, ou o aspecto asseado das camas feitas para que os guardas não o chateassem na revista aleatória.

7.
Só muito mais tarde, naquela prisão, ele pôs seriamente a hipótese de a mulher da repartição pública ser a mesma que lhe aparecia nos sonhos em que se expunha na marquise, na corda bamba da sorte. A mulher que, ao baixar-se, deixava ver de costas uma calcinha mínima, um fio dental atravessando-lhe a nádega em ganosa, estereotipando-lhe desejos. Depois que se perdera com esta mulher, real na noite, nunca mais teve descanso. Com ela já nem se importava de morrer desgraçadamente, deixando emprego, família e amigos, prestígio social.
E foi o que aconteceu.

Três linhas:
as pedras ficaram menos lisas neste meu quase último recreio. Os muros defendiam-me da luz, agora desnecessária. Comecei a entender-me com o olho de peixe e o magrinho saltitante. Fizemos um pacto de cordialidade por escrito.


(adapatação de "O Sobrevivente", publicado em "Olhar o Silêncio")


retrato





















Colagem de recortes de revista sobre papel manteiga.
Aguarela e tinta da China.
Moldura de madeira azul e passe-partout oval.
Dimensões – Medida do objecto total: 29x24

sábado, 29 de dezembro de 2007

retrato electrónico





















colagem e acrílico sobre madeira
com incrustação de elementos electrónicos. 30x40 cm

um poema de "A Palavra Passe"

canalização


Domino a infiltração que me perturba,
imagino o prazer da cama seca à espera de
algum canalizador a olhar obra futura com desdém,
há fuga de água, há ar a mais, é preciso calafetar a alma,
não vá sair de chofre o sopro que a sustem.

Tento consertar os canos,
esgotos de mim mesmo propagados pela casa,
o resto pouco importa, é o resultado dos anos.
Que é isso do poema feito no jogo da palavra barroca,
cultismo de circunstância sem lugar para
infiltrações ou para qualquer ratazana saída da toca
obstruindo a casa onde respiro e esqueço detritos
num banho de alfazema?

Não há canalizador que me valha,
estão todos ocupados com serviços importantes, urgentes até,
e eu que me arranje,
que escreva metáforas aos canos apodrecidos pelo tempo
onde sempre correu água turva por onde se esgueirou
o que sobra de mim, ao fim do dia,
não toda essa merda conspurcando enunciados, não,
antes aquela inventada para dar lugar a outra, que sobrou
por contraste, sacrifício, teimosia.

Como era bom agora uma esplanada junto ao mar,
ouvir outra água sem saber de nada, esquecer a tubagem,
tomar batidos de leite e nata com morango, sorver o café,
percorrer uma gaivota na praia com o olhar, sentir uma aragem,
pôr fim à porcaria dos poemas encharcados de quotidiano
até cheirar mal, e depois dizer “então como é?
Que chatice! Que é que eu vou fazer,
quem é que me vem consertar o raio do cano?”

Está roto e não há quem o remende, quem o troque por outro
asséptico e novo para durar a eternidade, sem pruridos,
como se os canos não se gastassem, e as juntas,
as ligações estranhas que fazemos sem saber porquê,
sem saber que somos infiltrados e à nascença entupidos,
até dizer basta!, quero respirar, quero escrever o que me vem
à cabeça com todos os sentidos,
depois logo se vê.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

interior de um aparelho electrónico
















fotografia trabalhada num programa de imagem

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Ur Banismos
















(abrir)




ON YOUR FEET!



Stand on your own feet – to be independent and able to take care of yourself
(in Oxford Advanced Learner’s Dictionary)

1.
Vivo em Mirandar entalado entre marquises de alumínio.
Aproximo-me da porta de entrada do prédio, subo ao quarto andar pelo elevador. Ninguém parece estar preocupado com os botões queimados com cigarros, nem com as palavras escritas no tecto, “cabrões putas paneleiros”. Os utilizadores descem em silêncio, como se nada fosse, mas lêem a mensagem e estabelecem a cumplicidade do não dito.
Olho da janela. Lá em baixo não há espaço nos passeios, estão cheios de carros mal intencionados.


(...)
Será que eu amaria Suzana de verdade? Ou tem sido tudo um sonho, apesar da intensidade de certas cenas do real, como as unhas cravadas na pele até deixarem marcas visíveis a olho nu? Provavelmente a questão do silêncio nada tem a ver comigo. Isto vai tudo rebentar, estamos a ficar dispersos numa constelação absurda de personagens vazias.
Que sei eu de Eufrásio, que sabe Natacha de mim, que sabe Nair de Alfredo e, até mesmo, que saberá Suzana de Alfredo e Alfredo de Natacha e Nair de mim? E eu de Suzana? É esta a estranheza que nos envolve a todos, quando passamos por entre os prédios altos de Mirandar e ouvimos a raiva ladrante do cão atrelado. É uma ligação artificial, mas que talvez só daqui por alguns anos ganhe corpo e seja aglutinada por um qualquer cimento ainda fresco de prédio a haver.
de Silêncios Comprados

colagem sobre cartolina 14x10 cm

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

De "O Meu Reino Por Um Cavalo





















Ilustrações de Rui Castro

( No Plano Nacional de Leitura)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
































Na apresentação de Marias Pardas com Maria do Céu Guerra,

Jorge Sequerra e Armandina Maia.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Marias Pardas

4. Escorre-te o cabelo pelos ombros, Marlene. Um dia hei-de amar-te assim, em redondilhas maiores, e de mão aberta levo para a tua cama a minha boca de sonetos enterrada nas tuas coxas brancas.

E no teu ventre breve depois da língua falada, de falo escondido no teu sovaco perfumado, não me vou importar com a natureza púbica dos astros, imerso para sempre no teu corpo adoçado de lume aspartame,


ah, Marlene, se te pudesse contar tudo!



Marlene, em Marias Pardas

sábado, 20 de janeiro de 2007

Leitura de Marias Pardas por Henrique Manuel Bento Fialho

 Marias Pardas (& etc, Março de 2011) oscila entre o denominado poema em prosa e aquilo a que agora se chama micronarrativa. São textos breves, agrupados em sequências, com uma componente diegética onde a poesia se instala já não apenas como metáfora mas, sobretudo, enquanto espaço de libertação da língua. A primeira sequência, intitulada Maria Parda, revela uma terceira pessoa em ruptura com todo o género de convenções. As imagens são sugestivas de um espaço degradante («sujidade das ruas», «a podridão dos sonhos», «ruas pardas»…) onde a sobrevivência se mantém pendurada por molas. Álcool disparado contra a solidão, blasfémias e impropérios proferidos como quem deixa escapar um pouco da cólera contida. Um universo de clochards que interroga a poesia sem grande efeito: «Ainda ouviu dizer que uma porrada de palavras a que chamavam poema era uma droga imparável, moto-contínuo de urina contra a parede, como qualquer roda rolando montanha abaixo, uma enxurrada de sinais gráficos a alienar-lhe os cornos e a mancha azul das olheiras. / Mas nada disso lhe interessava nem sequer sabia cagar efeitos» (p. 20).


Também Jesus e Goethe preferiam a companhia das putas. O papel do poeta, nestes casos, é excessivamente metódico. Ele observa e anota, não se furtando aos diagnósticos e, por vezes, avançando com teorias sobre os problemas. Já libertos do círculo lírico de um Eu ensimesmado, os olhos voltam-se para fora e deixam-se tomar pela paisagem. Agreste, sem dúvida, mas apelativa pelo lado libertário das personagens. Há uma certa intelectualidade que aprecia deveras o género, fazendo bandeira no poema da erosão sentimental e de uma linguagem desassombrada, ordinária, que a vida geralmente impede. A segunda sequência tem nome próprio: Marlene. Aqui é já o Eu quem fala, dirigindo-se a terceira pessoa como quem confessa uma desintegração ou, se quisermos, uma inadequação ao mundo: «Marlene, doem-me os pulsos, e já pouco mais me existe além do verde dos teus olhos, nesta cidade que nos mastiga diariamente» (p. 31). O mal-estar quotidiano toma conta da situação, a luz ao fundo do túnel é a luz parda de uns olhos longínquos, provavelmente também eles carentes de sentido.

Marlene é fonte de desejo, mas é também, e provavelmente mais que tudo, tubo de escape. É figura ao mesmo tempo mitológica e vivificante. É lugar de fuga e de restituição de uma ansiada paz interior, é o abrigo dos corações desavindos e das almas saturadas. Mas nem tudo se pode contar a Marlene. Esta impossibilidade de comunicação absoluta institui os limites da própria poesia, atira para a sarjeta a parangona da “poesia-verdade-absoluta”, da “poesia-revelação”, cedendo ao fingimento, ainda que travestido de castiça linhagem, imposto pelas circunstâncias: «Hei-de amar-te sempre, enquanto não tiver a luminosidade dos teus olhos a abafar-me aquela erecção que levarei até ao teu regaço, para que o acolhimento sem mácula desfaça o teu comércio dos enganos, a exploração dos operários das fábricas insolventes de caralhos de silicone, com um gestor de genitais ridículos, / e humidades fora do tempo e do lugar, / ah, Marlene, se te pudesse contar tudo! / Sinto a língua tão presa para te dizer que nasci numa aldeia da Beira-Baixa e tomei banho num rio inocente, só porque isso te poderia ofender, amo-te, toca-me aqui que eu gosto imenso, era só» (p. 41).

O volume termina com uma sequência intitulada Sem Nada. Nestes textos finais, reveladores, estamos no centro de onde, afinal, nunca chegámos a sair, esse Eu absoluto, castrador, inverosímil que toda a arte, incluindo a poesia, devia tentar aniquilar de uma vez por todas, mesmo que isso implique a morte própria. Missão impossível, por certo, mas que não deve impedir esforços. O vazio instala-se, assim como uma nostalgia estafada e impaciente. Tudo se perdeu, tudo nos roubaram, o mundo de hoje é tão insuportavelmente desapiedado. O tempo dita as regras, o vento tudo leva, mas de algo não nos livramos mesmo quando nos passam pelas mãos textos destes, o de sentirmos que tudo mudou para que tudo, afinal, ficasse na mesma. Não me lembro de que tenha sido diferente. Já Sócrates, e outros antes dele, se queixavam do mesmo. A pilhagem continuará, e nós a escrevermos desabafos. O livro é dedicado à actriz Maria do Céu Guerra.

Retratos de Nós 2014

            


Retratos de 
Nós       
2014 

Sempre gostei de captar pessoas e de as conhecer. Nos olhares, nas formas do rosto e nos sentimentos que eu pensava serem dominantes, grande parte das vezes os meus próprios reflectidos nos outros ou naquelas figuras que eu imaginei. São Retratos feitos ao longo da vida, gente que encontrei ou podia ter encontrado. Vou deixando por aqui algumas memórias, e as nossas máscaras de colecção em saldo. E a minha velha mania de respigar e reciclar - partindo sempre da matriz do papel e da tinta de água, e da china - numa resistência discreta ao consumismo que nos tem consumido, que já nos consumiu. A partir de certa fase, o trabalho passa a ser uma pesquisa, independente da obra-retrato, na sequência de outras experiências em que utilizei a mesma busca e procurei desenvolver técnicas com materiais idênticos a estes. Foi o que aconteceu com as séries Urbanismos e Abraços. Tanto esses como estes têm textos que os acompanham. Aqui introduzi mais alguns elementos: a caixa-moldura onde se encontra a parte central do retrato propriamente dito, como parte de um todo que o contextualiza e não mero contentor; restos de objectos electrónicos, circuitos impressos, fios, luz, espelhos; papéis reciclados, recortes de revistas efémeras, como efémera é esta amostra que partilho enquanto (con)vivo nos Nós. Esta exposição constitui a conclusão de uma trilogia. A primeira, Urbanismos, a segunda, Abraços Com Texto, e agora Retratos de Nós. A reunião dos textos elaborados para as exposições será publicada dentro de algum tempo. Até agora, apenas foram dados a conhecer os escritos que acompanharam Abraços Com Texto.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Já próximo dos anjos (2018)

Abrir


























Abrir







Há segredos dissolvidos na água

A chuva que eles apanharam no barco para a outra margem
nunca foi colocada na sua verdadeira dimensão, alienante e única.
O que os espanta, hoje, é tratar-se de um facto desligado
de tudo o que haveria de acontecer daí para frente,
sem qualquer continuidade.
O êxtase concentrou-se no barco a embalar o adeus,
e não apenas na chuva a rolar na face,
numa comunhão de água que é um fim em si mesmo,
uma espécie de alegria trágica
para manter o coração à superfície das mãos
ávidas da outra pele,
como se o mundo ali ficasse eternamente imóvel e molhado.