terça-feira, 1 de Janeiro de 2008

nota biográfica




















António Ferra nasceu no Porto em 1947 e vive em Lisboa. Para além da docência no ensino secundário, fez formação de professores e de profissionais de saúde na área da animação comunitária, dramaterapia/expressão dramática e da dinâmica de grupos e análise organizacional. Foi leitor em Cardiff, na Universidade do País de Gales, e formador de professores na República da Guiné Bissau, donde nasceu um livro.
É artista plástico e escritor, tendo publicações em diversas áreas, nomeadamente a pedagogia e a literatura infantil, com relevo para o teatro, em que é autor premiado (Caleidoscópio, 1980 ).
Desde muito jovem esteve ligado ao jornalismo, tendo publicações dispersas por vários jornais e revistas, nomeadamente “O Jornal da Educação”, desde o início até à sua extinção como publicação autónoma.
Tem vindo a cultivar um estilo diarístico e de reflexão num work in progress que dá pelo nome de “O funcionamento de certas coisas” (http://funcionamento.blogspot.com/)


Obras Publicadas:


Teatro e contos para a infância e juventude:


Zé Pimpão, João Mandão e os Sapatos Feitos à Mão (abrir) - 1978 (esgotado)

A Canção de Começar (abrir) – 1979 teatro (esgotado)

Caleidoscópio (abrir) - (Prémio de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura) 1980 teatro (esgotado)

Histórias E Teatrada Com Alguma Bicharada (abrir) – 1994, teatro

O Anjo e o Gato e outras Histórias (abrir) -2005


Pedagogia:


Pedagogia Centrada Na Pessoa (abrir) (duas edições, 1981, 1992)

Aprendizagem e Mudança (abrir) - 1984

Anima- Pedagogia e Animação Comunitária (abrir) - 1992

A Casa-Mãe (abrir) - Romance Pedagógico - 1998


Poesia e Pintura:


Norte (abrir) - 1986, plaquette (fora de mercado)

O Desemprego dos Dias (abrir) - 2005, palquette (fora de mercado)

Estação Suspensa
(abrir) - 2009


Participações:

Nas Antologias de poesia da D .Quixote: “Ao Porto” , “Encantada Coimbra” e “Algarve Todo o Mar”

Na colectânea de Contos “O Homem em Trânsito” da editora Indícios de Oiro

Na Antologia de Poesia "Os Dias do Amor" da editora Ministério dos Livros

Referências:

Dicionário de Literatura Infantil Portuguesa, António Garcia Barreto – Campo das Letras, 2002

O Teatro Para Crianças em Portugal, Glória Bastos, (abrir) Caminho, 2006





actividade de artista plástico (abrir)

a poesia é caríssima

A poesia é caríssima, custa muito dinheiro aos pedintes,
ali a mendigar junto ao semáforo, traje a rigor,
por dez livros de versos pagam vintes, contos de rei.

Ainda ontem tomei um copo de leite e uma bola de Berlim,
qual Belarmino – e não soquei ninguém neste boxe da palavra,
nesta queda no tapete do destino onde até a Florbela espanca.

Tanto verso, às vezes curto, a euro e meio,
tanta sílaba dividida pelos cêntimos,
comprai, poetas, as métricas saídas do paleio, rimas sem lei.

Nelas se finge a dor que não se sente,
se fere a angústia e fecha o cerco ao sentimento
de Pessoas ao dispor de toda a gente

(e digo isto porque tenho lido coisas!...
ai, meu Deus, que parecem ser mesmo verdade,
se calhar um poeta nunca mente)

E a cruz arrastada do leitor que penetra na leitura
interrompendo a noite, ouvindo Debussy
ou outro minimal em si contido,

folheando pérolas, a surpresa dos conceitos,
sabendo que escrever aquelas letras feitas de água
dá uma trabalheira, muito estudo, enquanto a noite dura?

Tantos anos de palavras e de jogos, tantas luzes
sentadas na cadeira, a cabeça sobre o coração da filosofia,
na pasmaceira das manhãs disfarçadas de noite, a dar o mote!

E se a sátira se estende na lombada do livro curto,
ou da antologia volumosa, (oh senhores, de meia vida?!)
guardai metáforas, lede Camões que é bom e é barato.

Ride-vos d’ O’Neill que não perdoa à graça, sofre a sorrir,
mas, por quem sois, se arrumais carros nas pracetas,
não compreis versalhada ao desbarato, é tempo de ir

comprar poemas avulso para os bolsos. Mas comprai poucos,
podeis crer que as letras não são tretas
andamos todos é a ler-nos uns aos outros.

inédito, série poesia satírica

segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

literatura para crianças

dois olhos de vidro


O Francisco gostava muito que a tia Rosa lhe contasse histórias de quando ela era menina. Como a da boneca chamada Mimi.

Era uma boneca de louça, daquelas que se podiam partir. Não era como as de agora, de plástico ou de borracha. Tinha um vestido cor-de-rosa, com florinhas azuis e folhos brancos na gola e na bainha. Quando estava sentada, ficava de braços abertos, de polegares espetados, a olhar para longe com uns olhos azuis brilhantes, debaixo de pestanas muito grandes e direitas.
Que lindos olhos ela tinha!

A tia Rosa era, então, uma menina de dez anos, que gostava de compreender as coisas mais simples que encontrava – o ruído das cigarras no Verão, os carreiros de formigas, o brilho dos pirilampos à noite.

Um dia, encantada com os olhos da Mimi, quis ver como eles eram feitos. Acabou por tirá-los para fora. Eram dois olhos azuis de vidro ligados entre si por um arame muito fino.
Estragar a boneca foi fácil, compô-la é que era mais difícil. E lá ficou a boneca à espera que alguém a levasse ao hospital.

Já sem aqueles olhos que lhe davam o encanto, foi sendo esquecida.
A Rosa só deu verdadeiramente pela falta da boneca, quando a família se mudou para um andar, nuns prédios novos, no coração da cidade, deixando para trás o quintal grande onde os pássaros lhe faziam companhia.

Acabou por perder a Mimi. Ficou muito triste, porque mesmo que arranjasse outra, nunca seria como a sua Mimi com aqueles olhos lindos.
Mas conservou sempre consigo aquele par de olhos azuis unidos por um araminho de dois centímetros.
A tia Rosa, que hoje também já é mãe de filhos crescidos – diz o Francisco - ainda agora os guarda dentro de uma caixa de cartão. De vez em quando, destapa a caixa e fica a olhá-los, sonhando com aqueles passeios que dava com ela ao colo, pelo quintal fora, observando carreiros de formigas e ouvindo um melro que as visitava.
Ainda hoje aqueles olhos de vidro lhe fazem companhia e ela continua a guardá-los, porque acha que um dia a boneca pode aparecer.
inédito

domingo, 30 de Dezembro de 2007

aquáticos





























Três linhas

1.
Numa repartição pública roubaram-lhe três linhas à escrita corrida onde se incluíam uma metáfora e outras três linhas ocultas

as pedras ficaram menos lisas neste meu quase último passeio. Poliam-me o olhar, as pedras, enquanto eu segurava o rosto, naquele equilíbrio entre o horizonte de lama e o recorte das casas numa colina de sal

A organização social da humanidade concentrada nos centros urbanos encontra-se reflectida nos mais pequenos sinais. Na verdade, nunca uma árvore pode ser derrubada, quando a música da manhã envolve o tronco, a copa, as folhas dispersas pelo céu, recortando fantasias, e um rasto de luz fica preso à sombra projectada no solo, pouco antes de o sol desaparecer completamente. As cidades estão poluídas de papéis sem cor, uns papelinhos aparentemente neutros que caem sobre as máquinas de fazer gelo situadas no exterior das estações e serviço que vendem gasóleo, mas também leite e pão, e gasolina e frescos muffins. Só quem não conhece a parte mais funda do poço dos desejos é capaz de trocar o néon pelo sol. Ainda assim, as manhãs vêm estimular o pensamento racional que amansa as dúvidas do corpo livre, corpo simultaneamente desejoso e apreensivo de confrontar-se com a regularização dos medos. Isso acontece frequentemente nas paredes mágicas que contornam os sentimentos mais comuns, tais como os estados de alma com uma ténue serenidade exposta às intempéries ou aos rostos amansados pela claridade.

2.
Numa repartição pública as moscas deixaram de perturbar o silêncio. Proibiram-lhes o vôo em zig-zag, bem diferente do vôo das aves de rapina, que é feito da seguinte maneira: a ave, lá de cima, faz desenhos circulares, enquanto vai filtrando a presa com o olhar. Depois aponta a um alvo e desce vertiginosamente até mergulhar sobre um pobre rato que pode mesmo situar-se entre os arquivos de cartórios notariais.
Havia um homem que tocava os tornozelos com os lábios e depois dizia que era de sabor amargo o rio de saliva que lhe escorria pelo peito. Isto tornou-se uma necessidade permanente, ao fim de alguns dias. Até que pensou mesmo que poderia morrer durante um destes exercícios. Quem pensa que está diminuído na sua saúde, na saúde das mãos que já não se mexem da mesma maneira, pode estar enganado. A organização social das cidades, deixou de ser uma panacéia. A questão é esta: de um campo interior as folhas voláteis dirigiram-se para o mar, mas para isso tiveram de atravessar um aglomerado de gente e de prédios onde o lixo se acumulava, indiferente às necessidades de respirar. A coca-cola já não tem qualquer responsabilidade sobre a proporção que as coisas tomaram, não há bodes expiatórios para as passagens subterrâneas. A destreza dos condutores produz efeitos rápidos porque as estradas se colam aos carros deslizantes, prateados na pista de mármore. Por vezes, algumas poças de água fazem travar o impulso automóvel, derrapagem breve por todos os trilhos.
Lá em baixo o lago, o Largo sem r, o pente sem dentes, a indecisão do cinéfilo perante a crítica ao filme. A praia estava iluminada pela luz artificial. Era uma luz crua, de um cinzento ácido, que tornava o areal mais limpo. Foi esta a imagem que Sobrevivente trouxe para casa.
Lá fora havia uma estrada com prédios do lado de lá. No primeiro plano as árvores estavam quase despidas, neste inverno onde ele procurava as palavras exactas para colocar no papel, a quatro. O computador ficou parado, apenas com o ruído continuo ao rá lanti. Agora, já se sente a falta do papel-papel

talvez os barcos de recreio tenham saído nas tardes de sexta-feira, quando existem expectativas para o fim de semana. Perdi-me a olhar aquela faixa de musgo que abrigava pássaros tardios, répteis da noite

3.
Três linhas, e era como se a terra ficasse húmida, em vez daquela terra parda e seca, antes da humidade de Novembro. O Sobrevivente cortara radicalmente com o campo, com o Verão silenciado, e ficou com as estrelas da noite que a cidade esconde. Que confusão esta, nem sequer a verdade num objecto tão simples como cinzeiro de prata sem história! Colam-se na parede as imagens esquecidas, já nem vale a pena medir o declive do terreno. Foi tudo um mal-entendido. Talvez alguém se vá embora de vez, conduzindo um Chevrolet de 1940, ou qualquer outro carro de carroceria a brilhar, cheia de cromados deslumbrantes, como num anúncio onde uma mulher exibe um sorriso de nácar.
De tanto esperar, tirando a senha, ficando com ela entre o indicador e o polegar, quando ia falar com alguém, ao Sobrevivente metia-lhe impressão não ter uma senha numerada das filas de espera na farmácia, nos notários, nas finanças, nos serviços de gás, de água, de telefone, enfim, uma segurança que se podia chamar social. Ele, o Sobrevivente, sentia entre as mãos a oportunidade a fugir-lhe. “Ah, queria falar, pago para isso, quanto é?”.

4.
Apercebo-me mais do sol, sinto-o com uma intensidade que não conhecia. É uma surpresa, apesar de saber que tem um prazo de validade impresso a letras quase ilegíveis, mal se vêem.

Três linhas, mais letra menos letra, trinta e duas palavras escritas na subversão da noite. Apenas essas, de relance, automáticas, pequeníssimo espaço onde Sobrevivente se mantinha vivo, ele, um homem perseguido que se queria refugiar nas montanhas vivas, qual guerrilheiro das palavras. E viver do que a natureza lhe dava, como já antes acontecera, durante cerca de quatro meses, num país de sonho tropical onde a falta de chuva o levara ao desespero durante algum tempo, embora soubesse que a respectiva época haveria de realizar-se, ainda que tardiamente. Até que uma noite, quase madrugada, ela desatou a cair como Deus a dava, com o peso daquelas mangueiradas naturais a entranharem-se na terra, a escorrerem de um poilão contente, a regarem à bruta a bananeira plantada em frente da sua casa. Saiu porta fora e ali ficou a deixar que a água lhe atravessasse os ossos e lhe lavasse a alma de tanto esperar, de tanto desejar.
O desejo é um estado que inquieta e nos faz suspensos de qualquer coisa que há-de vir do céu, que é para onde olhamos quando queremos saber “para quê isto?”. Sabemos, então, que seremos dissolvidos na lama de arrasto, nas pedras, nas raízes das árvores que seguram a montanha onde os guerrilheiros lutam por uma libertação final e absoluta.

5.
Até na cela colectiva Sobrevivente conseguia escrever as três linhas necessárias para sustento diário. Não mais do que três linhas. Os outros dois companheiros de cela gritavam de inveja sem saber que a tinham. Queriam era desgovernar-lhe a mão ligada a uma esferográfica lenta. O maior, o dono da cela, tinha olhos redondos de peixe, cara redonda também, corpanzil para cem quilos, tatuagem no braço esquerdo: um cobra de língua bífida, a rastejar. O mais novo era magro demais, com olhar de gato agressivo, saltitante até às grades. Cortava as palavras de Sobrevivente, censurava-as com a respiração, com os olhos, com os gestos, nas voltas inquietantes na cama do beliche. Sobrevivente achava bem, mas sabia que a sua luta era infindável. Que mesmo quase sem privacidade podia inventar as três linhas diárias num curto espaço de tempo. Isto era assim devido à privacidade quase. Dos outros dois nada se sabe, mas de Sobrevivente sabe-se que foi detido, uma tarde, numa repartição pública cujo serviço mais especificado não será aqui referido, por uma questão de privacidade. Sobrevivente exaltara-se, de facto, quando se sentiu esquecido e abandonado, e feriu com o olhar a funcionária, porque os olhares podem ser tão violentos como as palavras e os gestos. Por isso foi preso e condenado. Acabou por perder amigos e família, dinheiro e prestígio social, apenas porque não distinguiu a funcionária etérea da mulher-quimera que o torturara durante dois anos e meio, quando chegava a ficar esticado numa corda da marquise à espera de ser confundido com roupa a secar, só para não ser notado, sobretudo por essa mulher que amava. Mas ela não o amava, apenas se servia da sua frágil genitalidade, do seu aspecto escravatário que lhe dava mesa e tratamento de roupas em trocas de cama lavada.

6.
Depois de fazer os tais desacatos na repartição pública (alguns insinuam tratar-se de uma repartição de finanças, já que as situações tributárias sempre se associaram à culpa) foi levado pela polícia. In loco. A funcionária que o iria atender era uma mulher magra, com cerca de quarenta anos, cabelo louro altamente artificial, lábios roxos e vestido negro, como se fosse para uma discoteca ou para um “party pris” e não para atender homens e mulheres que faziam bicha contida, em purra, aqui e ali.
Ao começo da noite Sobrevivente procurava as palavras que lhe começavam a escassear à medida que o seu pensamento se esvaziava, devido, em parte, à falta de uso adequado. Porque eram sempre as mesmas palavras copiadas ao longo dos anos, num caderno de cópia mental, marginalizado. Mais do que uma vez lhe faltaram as palavras e ia morrendo de solidão. Só não morreu, porque vislumbrou através das grades a copa de um plátano com algumas folhas amareladas, folhas de Outono num resto de sol da tarde. Esta sua não-morte deveu-se ainda às três linhas que conseguia escrever, pois assim recuperou uma certa individualidade. Sobrevivente escrevia as coisas que precisava de fazer para sobreviver, sempre no gume da navalha. Tanto podia escrever sobre as folhas de plátano, como podia escrever sobre o medo de morrer de medo, ou sobre as surtidas nocturnas que desejava fazer através de um amontoado de palavras, embora soubesse que isso não passava de um sucedâneo. Desesperadamente, então, acumulava imagens na cabeça só para entreter, género assalto a repartição pública para registo de dados, falsificação de senhas de espera, é de cétara. E dava-se a estes luxos de liberdade mental nos intervalos em que o gordo e o magro lhe davam certo descanso à fantasia, em vez de massacrá-lo com os cigarros, o negócio dos mais estranhos objectos, tipo canetas bic, ou o aspecto asseado das camas feitas para que os guardas não o chateassem na revista aleatória.

7.
Só muito mais tarde, naquela prisão, ele pôs seriamente a hipótese de a mulher da repartição pública ser a mesma que lhe aparecia nos sonhos em que se expunha na marquise, na corda bamba da sorte. A mulher que, ao baixar-se, deixava ver de costas uma calcinha mínima, um fio dental atravessando-lhe a nádega em ganosa, estereotipando-lhe desejos. Depois que se perdera com esta mulher, real na noite, nunca mais teve descanso. Com ela já nem se importava de morrer desgraçadamente, deixando emprego, família e amigos, prestígio social.
E foi o que aconteceu.

Três linhas:
as pedras ficaram menos lisas neste meu quase último recreio. Os muros defendiam-me da luz, agora desnecessária. Comecei a entender-me com o olho de peixe e o magrinho saltitante. Fizemos um pacto de cordialidade por escrito.


(adapatação de "O Sobrevivente", publicado em "Olhar o Silêncio")


retrato





















Colagem de recortes de revista sobre papel manteiga.
Aguarela e tinta da China.
Moldura de madeira azul e passe-partout oval.
Dimensões – Medida do objecto total: 29x24

sábado, 29 de Dezembro de 2007

retrato electrónico





















colagem e acrílico sobre madeira
com incrustação de elementos electrónicos. 30x40 cm

um poema de "A Palavra Passe"

canalização


Domino a infiltração que me perturba,
imagino o prazer da cama seca à espera de
algum canalizador a olhar obra futura com desdém,
há fuga de água, há ar a mais, é preciso calafetar a alma,
não vá sair de chofre o sopro que a sustem.

Tento consertar os canos,
esgotos de mim mesmo propagados pela casa,
o resto pouco importa, é o resultado dos anos.
Que é isso do poema feito no jogo da palavra barroca,
cultismo de circunstância sem lugar para
infiltrações ou para qualquer ratazana saída da toca
obstruindo a casa onde respiro e esqueço detritos
num banho de alfazema?

Não há canalizador que me valha,
estão todos ocupados com serviços importantes, urgentes até,
e eu que me arranje,
que escreva metáforas aos canos apodrecidos pelo tempo
onde sempre correu água turva por onde se esgueirou
o que sobra de mim, ao fim do dia,
não toda essa merda conspurcando enunciados, não,
antes aquela inventada para dar lugar a outra, que sobrou
por contraste, sacrifício, teimosia.

Como era bom agora uma esplanada junto ao mar,
ouvir outra água sem saber de nada, esquecer a tubagem,
tomar batidos de leite e nata com morango, sorver o café,
percorrer uma gaivota na praia com o olhar, sentir uma aragem,
pôr fim à porcaria dos poemas encharcados de quotidiano
até cheirar mal, e depois dizer “então como é?
Que chatice! Que é que eu vou fazer,
quem é que me vem consertar o raio do cano?”

Está roto e não há quem o remende, quem o troque por outro
asséptico e novo para durar a eternidade, sem pruridos,
como se os canos não se gastassem, e as juntas,
as ligações estranhas que fazemos sem saber porquê,
sem saber que somos infiltrados e à nascença entupidos,
até dizer basta!, quero respirar, quero escrever o que me vem
à cabeça com todos os sentidos,
depois logo se vê.

sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

interior de um aparelho electrónico
















fotografia trabalhada num programa de imagem

sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

Romeo and Juliet and Callas


video

quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

Ur Banismos
















(abrir)




ON YOUR FEET!



Stand on your own feet – to be independent and able to take care of yourself
(in Oxford Advanced Learner’s Dictionary)

1.
Vivo em Mirandar entalado entre marquises de alumínio.
Aproximo-me da porta de entrada do prédio, subo ao quarto andar pelo elevador. Ninguém parece estar preocupado com os botões queimados com cigarros, nem com as palavras escritas no tecto, “cabrões putas paneleiros”. Os utilizadores descem em silêncio, como se nada fosse, mas lêem a mensagem e estabelecem a cumplicidade do não dito.
Olho da janela. Lá em baixo não há espaço nos passeios, estão cheios de carros mal intencionados.


(...)
Será que eu amaria Suzana de verdade? Ou tem sido tudo um sonho, apesar da intensidade de certas cenas do real, como as unhas cravadas na pele até deixarem marcas visíveis a olho nu? Provavelmente a questão do silêncio nada tem a ver comigo. Isto vai tudo rebentar, estamos a ficar dispersos numa constelação absurda de personagens vazias.
Que sei eu de Eufrásio, que sabe Natacha de mim, que sabe Nair de Alfredo e, até mesmo, que saberá Suzana de Alfredo e Alfredo de Natacha e Nair de mim? E eu de Suzana? É esta a estranheza que nos envolve a todos, quando passamos por entre os prédios altos de Mirandar e ouvimos a raiva ladrante do cão atrelado. É uma ligação artificial, mas que talvez só daqui por alguns anos ganhe corpo e seja aglutinada por um qualquer cimento ainda fresco de prédio a haver.
de Silêncios Comprados

colagem sobre cartolina 14x10 cm

quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

corpos série eros